Seja bem-vindo
Dourados,23/03/2026

  • A +
  • A -

ENTRE A SEDE E A DOENÇA:

O ESTADO QUE PRODUZ A MORTE NAS ALDEIAS DE DOURADOS

Jornalista Wilson Matos/Editorial
ENTRE A SEDE E A DOENÇA: foto gilberto Ferndes/Facebook



O avanço da Chikungunya
na Reserva Indígena de Dourados escancara uma realidade cruel: o Estado
brasileiro segue sendo agente direto da vulnerabilização dos povos indígenas.



Não se trata de fatalidade.



Não se trata de descuido da
comunidade.



Trata-se de uma tragédia
anunciada — e ignorada.



Dados recentes apontam que
cerca de 70% dos casos da doença no município estão concentrados dentro das
aldeias Jaguapiru e Bororó. Mais grave ainda: aproximadamente 90% dos focos do
mosquito transmissor foram encontrados em caixas d’água.



E aqui reside o ponto
central que o poder público insiste em esconder:

essas caixas d’água não são uma escolha — são uma imposição da negligência
estatal.



Sem abastecimento regular,
milhares de famílias indígenas são obrigadas a armazenar água em recipientes
improvisados. Caminhões-pipa chegam de forma irregular, em alguns locais apenas
uma vez por semana. Diante da escassez, resta à população manter reservatórios
abertos, inclusive para captar água da chuva.



O resultado é perverso e
previsível: o mesmo recipiente que garante a sobrevivência se transforma em
criadouro do mosquito.



 O Estado cria o problema. A comunidade sofre
as consequências.

 E, cinicamente,
ainda se tenta transferir a culpa para as vítimas
.



 



A MEMÓRIA QUE O PODER
PÚBLICO TENTA APAGAR



Não é a primeira vez.



Em 2016, durante a epidemia
de Dengue, lideranças indígenas, comunicadores e defensores da
comunidade percorreram as aldeias com carros de som, orientando casa por casa.
Já naquele momento, denunciava-se exatamente o mesmo problema: a falta de água
encanada regular obrigava o armazenamento — e, consequentemente, alimentava o
ciclo da doença.



Quase uma década depois, nada
mudou.



O que se vê hoje é a
repetição de um padrão histórico de abandono, onde a omissão estatal deixa de
ser falha administrativa e passa a configurar violação sistemática de
direitos fundamentais
.



QUANDO A AUSÊNCIA DE
POLÍTICAS PÚBLICAS MATA



A crise atual já resultou
em mortes e centenas de hospitalizações.

Cada número carrega um nome, uma família, uma história interrompida.



Não se pode naturalizar
esse cenário.



A Constituição Federal
garante o direito à saúde, à dignidade e à vida. A legislação indigenista
reforça o dever do Estado de assegurar condições adequadas às comunidades
tradicionais.



No entanto, o que ocorre em
Dourados é o oposto:



  • Ausência de saneamento básico;
  • Fornecimento irregular de água;
  • Políticas públicas desconectadas da
    realidade indígena;
  • Respostas emergenciais que não atacam a
    raiz do problema.


Isso não é apenas
negligência. É responsabilidade.



ENTRE A OMISSÃO E A
RESPONSABILIZAÇÃO



É preciso dizer com todas
as letras: o surto de Chikungunya nas aldeias Jaguapiru e Bororó não pode ser
tratado apenas como questão sanitária.



Ele deve ser compreendido
como:



️ consequência direta da omissão estatal



️ expressão de desigualdade estrutural



️ possível violação de direitos humanos



A insistência em ignorar
essas condições pode, inclusive, abrir espaço para responsabilização do Estado
em âmbito nacional e internacional.



UMA ESCOLHA IMPOSTA: MORRER
DE SEDE OU DE DOENÇA



O cenário imposto às
comunidades indígenas é desumano.



De um lado, a falta de
água. De outro, o risco de contaminação.



Não há escolha legítima
quando todas as alternativas levam à violação da vida.



CONCLUSÃO: NÃO FOI O
MOSQUITO QUE CRIOU ESSA CRISE



É preciso romper com a
narrativa simplista que coloca o mosquito como único vilão.



O mosquito é apenas o
vetor. A causa é política.



Enquanto não houver
investimento sério em abastecimento de água, saneamento básico e políticas
públicas construídas com participação indígena, novas epidemias continuarão
surgindo — e novas vidas continuarão sendo perdidas.



O que acontece hoje em
Dourados não é um episódio isolado.

É o retrato de um Estado que falha — e que, ao falhar, mata.







COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.