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Dourados,23/03/2026

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QUANDO A NECROPOLÍTICA APAGA NARRATIVAS

Os Terena de Dourados e a violência silenciosa da academia

artigo de Opinião
QUANDO A NECROPOLÍTICA APAGA NARRATIVAS Wilson Matos da Silva - Divulgação



*Wilson Matos da Silva



Ao falar em necropolítica
no Brasil costuma nos remeter a imagens extremas: corpos assassinados,
chacinas, massacres, repressão policial. No entanto, como ensina Achille
Mbembe, a política de morte não se limita ao extermínio físico. Ela opera
também por meio do apagamento, do silenciamento e da negação da existência
social. Há vidas que seguem respirando, mas que, para o Estado e para a
sociedade, não contam. Estão vivas biologicamente, mas mortas politicamente.
Essa lógica atravessa o cotidiano dos povos indígenas e se manifesta de forma
particularmente cruel na realidade dos
Terena da região da Grande Dourados
.



Um recente
ensaio autoetnográfico sobre o acesso à justiça no sul do Mato Grosso do Sul
revela como o Racismo de Estado e a necropolítica se materializam nas
instituições mais básicas: “delegacias,
sistema prisional, hospitais e defensorias públicas. Indígenas são espancados
por “perfil”, criminalizados por existirem fora do padrão esperado e
silenciados pelo medo. Crianças indígenas, sem registro de nascimento,
tornam-se literalmente inexistentes para o Estado: não acessam saúde,
vacinação, benefícios sociais ou cidadania. São vidas que pulsam, mas que não
são reconhecidas
. ”



Essa
experiência não é exceção. Ela é regra. E encontra um paralelo direto na
trajetória histórica e contemporânea dos Terena de Dourados.



Embora os
Terena estejam presentes na região desde pelo menos 1913/1914 — antes mesmo da
formalização administrativa da Reserva Indígena de Dourados — sua história é
sistematicamente empurrada para as margens. Quando não são ignorados, aparecem
como coadjuvantes, como se fossem uma presença secundária, quase incômoda, em
um território que ajudaram a construir com sangue, trabalho e resistência.



Esse apagamento
não ocorre apenas por ação direta do Estado. Ele é reproduzido, legitimado e
naturalizado por um outro poder igualmente violento: O SABER ACADÊMICO.



A academia
brasileira, especialmente quando trata da questão indígena no Mato Grosso do
Sul, região da Grande Dourados, costuma privilegiar determinadas etnias em
detrimento de outras. Não se trata de negar a centralidade histórica e política
dos Guarani e Kaiowá — povos que enfrentam uma realidade brutal de violência e
espoliação territorial. O problema surge quando essa centralidade se transforma
em exclusividade, e outras experiências indígenas são sistematicamente
invisibilizadas.



Os Terena de
Dourados raramente ocupam o centro das análises
, dos projetos de pesquisa,
das grandes narrativas sobre conflito, território e resistência. Sua presença é
diluída, secundarizada ou simplesmente omitida. Com isso, constrói-se uma
memória seletiva, que hierarquiza dores, lutas e histórias. Essa escolha não é
neutra. Ela produz efeitos concretos.



É preciso dizer
com todas as letras: existe uma necropolítica acadêmica. Ela não mata
corpos, mas mata narrativas. E ao matar narrativas, prepara o terreno para
todas as outras formas de violência.



Quando a história Terena é apagada,
torna-se mais fácil negar políticas públicas específicas. Torna-se mais simples
relativizar seu pertencimento territorial. Mais aceitável ignorar sua
participação nos processos de formação da Reserva Indígena de Dourados. Mais
conveniente tratá-los como “menos indígenas”, “menos originários” ou “menos
prioritários”. O silêncio acadêmico legitima o silêncio institucional.



Assim como a
criança indígena sem registro de nascimento narrada no ensaio de Andrei
Domingos Fonseca não existe para o Estado, os Terena frequentemente não existem
para a produção científica dominante. Não por falta de fatos, documentos ou
memória, mas por uma opção epistemológica que decide quem merece ser visto e
quem pode ser esquecido.



Esse mecanismo
é profundamente perverso. Antes de negar direitos, o Estado nega a existência.
E a academia, quando se omite ou seleciona suas lentes de forma conveniente,
torna-se cúmplice desse processo. Produzir conhecimento não é apenas descrever
a realidade; é participar ativamente da sua construção.



A necropolítica
opera justamente aí: na administração da invisibilidade. Não é necessário matar
quando se pode ignorar. Na Grande Dourados, esse papel tem sido desempenhado de
forma sistemática pelas universidades públicas, em especial pela UFGD, que
lidera a produção acadêmica regional, e pela UEMS, que, embora em menor
intensidade, segue a mesma lógica. Ambas concentram esforços, recursos e
prestígio acadêmico em projetos voltados quase exclusivamente aos povos Guarani
e Kaiowá, enquanto os Terena são tratados como presença residual, quando não
simplesmente apagados. Trata-se de uma escolha política travestida de
neutralidade científica.



Romper com essa
lógica exige mais do que boas intenções. Exige disputa de narrativa,
enfrentamento político e coragem intelectual. Exige reconhecer que a
pluralidade indígena da Grande Dourados não é um problema analítico, mas um
dado histórico incontornável. Exige inscrever a experiência Terena no centro do
debate, não como concessão, mas como justiça histórica.



Produzir
memória é um ato político. Contar a história dos Terena de Dourados é enfrentar
a necropolítica que insiste em transformá-los em ausência. Enquanto suas
narrativas forem tratadas como notas de rodapé, o Estado seguirá confortável em
sua política de morte simbólica.



A pergunta que
fica não é apenas quem morre, mas quem tem o direito de existir, falar e ser
lembrado
. Enquanto essa resposta for seletiva, a necropolítica seguirá
vencendo — silenciosa, eficiente e legitimada pelo próprio discurso do
conhecimento acadêmico. Minha dor enquanto Terena é enorme, mas organizada
pela razão!



*Wilson Matos da Silva – É
Indígena, Advogado Criminalista OABMS 10.689, especialista em Direito
Constitucional, é Jornalista DRT 773MS. residente na Aldeia Jaguapiru –
Dourados MS. nosliwsotam@gmail.com







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