Quando a sede é política e o abandono vira método
ARQUIIVO
Há dores que não nascem de um fato isolado, mas de um projeto histórico de abandono. A falta de água nas aldeias de Dourados não é acidente, não é falha pontual, tampouco fruto do acaso. É escolha política. É a continuidade de uma lógica que naturaliza a precariedade quando ela atinge povos indígenas.
Falo com a autoridade de quem conhece o trabalho duro desde o corte de cana, de quem aprendeu cedo que o suor do trabalhador sustenta luxos alheios. Falo como quem acreditou que a comunicação poderia romper silêncios e, no rádio, ousou denunciar injustiças quando isso ainda custava caro. E falo, sobretudo, como advogado que escolheu estar ao lado das minorias e descobriu, na prática, o quanto o Direito brasileiro ainda é seletivo, condicionado e frequentemente cego diante dos povos indígenas.
Hoje, em Dourados, o cenário é desolador — e indigno.
A falta de água potável nas aldeias Jaguapiru e Bororó é um ataque direto à dignidade humana. Água não é favor, não é política pública opcional, não é promessa eleitoral: é direito fundamental. Negar água é impor sede. E impor sede é exercer uma forma silenciosa de violência institucional.
O abandono estrutural das aldeias pela Prefeitura revela uma gestão que não dialoga, não escuta e não respeita os povos originários. Quando o poder público se ausenta, ele não fica neutro — ele escolhe o lado da omissão, e a omissão também mata, também adoece, também expulsa.
Some-se a isso o desmonte da CEAID, espaço que deveria ser de articulação, escuta e formulação de políticas públicas indígenas. Enfraquecer a CEAID não é mero rearranjo administrativo: é retirar dos povos indígenas o direito de participar das decisões que lhes dizem respeito. É governar sobre nós, nunca conosco.
No campo da educação, a situação é ainda mais grave.
O desrespeito às normas das escolas indígenas, a imposição de decisões sem consulta às comunidades, o esvaziamento da Educação Escolar Indígena enquanto política específica, diferenciada e intercultural revelam uma visão colonial ainda presente na gestão pública. Trata-se de uma educação pensada para indígenas, mas não com indígenas — e isso é inadmissível.
A Educação Escolar Indígena não é concessão ideológica. Ela está prevista na Constituição Federal, na legislação infraconstitucional e em pactos internacionais dos quais o Brasil é signatário. Desrespeitá-la é violar a lei, mas, mais do que isso, é violar a história, a cultura e o futuro de povos inteiros.
O que vemos em Dourados é a repetição de um padrão antigo:
– direitos tratados como “se possível”;
– políticas públicas executadas “quando couber”;
– vidas indígenas empurradas para o fim da fila.
Mas é preciso dizer com clareza: não aceitaremos a normalização da precariedade. Não aceitaremos que a sede, o abandono e o desmonte institucional sejam tratados como problemas menores. Não aceitaremos que escolas indígenas sejam administradas como se fossem extensões genéricas do sistema, ignorando línguas, saberes e territórios.
Apesar da desilusão que o tempo e a experiência trazem, seguimos firmes. Porque a luta não é individual, é coletiva. Porque cada denúncia é também um ato de memória. Porque cada palavra escrita ou falada rompe o silêncio que o poder tenta impor.
Aos gestores públicos de Dourados, fica o recado:
os povos indígenas não pedem privilégios — exigem direitos.
E direitos não se negociam, se cumprem.




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