Quando o Estado responde com choque à falta de água
Foto OTGD/Arquivo
A pergunta que permanece ecoando 15 meses depois é simples e dolorosa: por
que o Estado enviou tropa de choque para resolver um problema de água?
O conflito de novembro de 2024 não nasceu da violência. Nasceu da ausência. Da torneira seca.
Da negligência administrativa. Da omissão
prolongada.
A resposta governamental não foi um
caminhão-pipa. Não foi um plano emergencial. Não foi diálogo institucional robusto. Foi o Batalhão de Choque!
Invadir território indígena sem ordem
judicial, percorrer vias internas da aldeia por quilômetros e confrontar
mulheres, crianças e rezadores não é procedimento administrativo — é sintoma de
uma lógica histórica: a de tratar
reivindicação indígena como caso de polícia.
É simbólico — e grave — que apenas 15 meses depois um órgão nacional
venha recomendar investigação e plano de redução da violência policial. A resolução é necessária. Mas tardia.
É preciso dizer algo que raramente se
reconhece:
Os povos indígenas produzem. Trabalham nas indústrias. Estudam nas
universidades. Geram bens, serviços e renda. Pagam impostos sobre consumo,
sobre renda, sobre produção. Contribuem com a economia estadual e nacional.
Não pagam IPTU ou ITR porque não são proprietários da terra — as terras
indígenas são bens da União. Mas isso não os exime de serem parte ativa da
engrenagem econômica.
Ainda assim, quando falta água, falta saneamento, falta política
pública, a resposta vem em forma de escudo, bala de borracha e gás
lacrimogêneo.
O Supremo Tribunal Federal discute na ADPF 1059 os limites da atuação policial
em territórios indígenas. O debate é jurídico. Mas a questão é política e
moral: qual modelo de Estado queremos?
Um Estado que dialoga ou um Estado que
invade?
Um Estado que garante saneamento ou um Estado que reprime protesto por
água?
A Reserva Indígena de Dourados é uma das mais populosas do Brasil. O que
acontece ali não é episódio isolado — é termômetro de uma política pública que
precisa ser revista.
Investigar é fundamental.
Responsabilizar, se houver excessos, é necessário. Mas estruturar políticas
permanentes de água, saneamento e segurança com respeito intercultural é
urgente.
Porque quando falta água e sobra choque, não é apenas uma comunidade que
adoece.
É o próprio Estado Democrático de Direito que se enfraquece.




COMENTÁRIOS