DECLARAÇÃO DE SOLIDARIEDADE AO VEREADOR GRINGO E ÀS LIDERANÇAS INDÍGENAS DO MATO GROSSO DO SUL.
foto Bulhões Digital DECLARAÇÃO DE SOLIDARIEDADE AO VEREADOR GRINGO E ÀS LIDERANÇAS INDÍGENAS DO MATO GROSSO DO SUL.
Por Wilson Matos 
Recebo com profundo respeito e solidariedade a indignação manifestada pelo Vereador Gringo, Presidente do Legislativo de Sidrolândia, homem que construiu sua trajetória junto às bases, ouvindo os anseios do povo indígena e compreendendo, na prática, as dores e as necessidades das comunidades do Mato Grosso do Sul.
É lamentável que, diante da má condução política instalada no cenário indígena estadual, o vereador tenha sido levado a desistir de um projeto legítimo de disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado. Em minha compreensão, o Vereador Gringo reunia condições políticas, experiência comunitária, maturidade e legitimidade popular para representar os povos indígenas sul-mato-grossenses no parlamento estadual.
Infelizmente, assistimos hoje a uma política conduzida por vaidades acadêmicas e por uma perigosa desconexão com a sabedoria ancestral dos nossos povos. O atual Ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, embora tenha conquistado importantes títulos na academia, parece esquecer que, para os povos originários, a verdadeira autoridade não nasce apenas dos diplomas pendurados na parede, mas do compromisso espiritual, coletivo e ancestral com o povo.
A academia pode ensinar teorias, mas não substitui a vivência comunitária, a escuta das lideranças tradicionais, o respeito aos anciãos e o entendimento profundo dos símbolos sagrados da nossa cultura.
Causa estranheza, inclusive, a tentativa de ressignificar elementos espirituais e identitários dos nossos povos sem a devida legitimidade ancestral. O cocar, por exemplo, não é mero adereço estético ou peça decorativa. Trata-se de símbolo espiritual, cultural e sagrado. Sua utilização exige respeito, responsabilidade e pertencimento coletivo. Não cabe a agentes políticos, movidos por personalismos, reinventar símbolos que pertencem à memória ancestral dos povos indígenas. Quando tais símbolos são utilizados de maneira dissociada de sua dimensão espiritual e comunitária, corre-se o risco de esvaziar seu verdadeiro significado cultural, promovendo uma forma de banalização incompatível com o respeito devido às tradições ancestrais.
Mais preocupante ainda é perceber que, em vez de construir pontes amplas com as lideranças indígenas do Mato Grosso do Sul, o atual ministro cercou-se de uma pequena panelinha política e ideológica, transformando representantes indígenas em meros prepostos de interesses externos, muitas vezes alinhados a organizações não governamentais que, há anos, falam em nome dos indígenas sem conhecer verdadeiramente a realidade vivida nas aldeias.
O resultado dessa condução política equivocada é o afastamento de lideranças legítimas, o enfraquecimento da representatividade indígena e o aumento das divisões internas em um momento em que nossos povos necessitam exatamente do contrário: união, diálogo e respeito às diversidades culturais e políticas existentes dentro das comunidades.
Quando o Presidente Lula entregou simbolicamente a caneta ao Ministro Eloy e afirmou que ela deveria servir para fazer política em benefício do povo indígena, muitos de nós acreditamos que surgia uma oportunidade histórica de reconstrução da dignidade dos povos originários do Brasil. Contudo, política indígena não pode ser construída apenas em gabinetes de Brasília, nem sob aplausos de grupos seletos. Política indígena verdadeira nasce no chão da aldeia, no sofrimento do povo, na luta diária por água, saúde, território, segurança e respeito.
O Mato Grosso do Sul conhece profundamente suas próprias feridas. Conhece o sangue derramado nas retomadas, a fome, o confinamento territorial, os suicídios, os atropelamentos nas rodovias que cortam reservas indígenas e o abandono histórico das comunidades. Por isso mesmo, precisamos de representantes que conheçam essa realidade não apenas pelos livros, mas pela própria caminhada de vida.
Manifesto, portanto, minha solidariedade ao Vereador Gringo e a todas as lideranças indígenas sérias e comprometidas que vêm sendo marginalizadas por um projeto político centralizador, elitizado e desconectado das bases comunitárias.
Que nossos povos nunca se esqueçam de que a sabedoria ancestral vale mais do que qualquer vaidade acadêmica, e que o verdadeiro líder indígena não é aquele que fala mais alto nos salões do poder, mas aquele que permanece humilde diante do seu povo e fiel às tradições recebidas dos ancestrais.




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