Foto: Divulgação/Arquivo O que se vê hoje em Mato
Grosso do Sul não é política pública. É estratégia. E estratégia antiga: pão e
circo.
Enquanto bilhões em
isenções fiscais são concedidos ao agronegócio e a grandes indústrias — valores
que chegam à casa dos R$ 11 bilhões —, às comunidades indígenas é oferecido o
vazio institucional travestido de política pública. Criou-se uma chamada
“Subsecretaria de Políticas Públicas para os Povos Indígenas”, mas sem
orçamento, sem estrutura, sem autonomia. Um nome sem substância. Um símbolo sem
ação.
No início, ainda houve
esperança. Uma liderança indígena assumiu o espaço com o propósito legítimo de
construir políticas reais. Não permaneceu. Não se adequou. Porque política
pública de verdade exige enfrentamento — e o que se queria era apenas
aparência.
Na sequência, o que se viu
foi a substituição por um modelo funcional ao sistema: presença simbólica,
discursos vazios, visitas protocolares e nenhuma transformação concreta. Uma
política baseada em eventos, reuniões e promessas — o circo. Enquanto isso, o
pão sequer chega às aldeias.
E quando o povo indígena
decide se manifestar de forma pacífica, o que recebe em troca?
Repressão.
Na Terra Indígena de
Dourados, comunidades das aldeias Jaguapiru e Bororó foram às ruas exigir o
mínimo: água. Água, que é direito básico, humano, essencial à vida. A resposta
do Estado foi a presença da Polícia Militar, invadindo território indígena para
conter, intimidar e silenciar.
Em outro ponto do Estado,
em Ñande Ru Marangatu, no município de Antônio João, a violência atingiu seu
ponto mais grave. Um indígena desarmado foi alvejado diante das câmeras. Um
episódio que escancara o grau de desproteção e vulnerabilidade a que esses povos
estão submetidos.
Esses fatos não são
isolados. Eles revelam um padrão.
De um lado, incentivos
bilionários. De outro, ausência, descaso e repressão.
E agora, mais uma vez,
aproxima-se o período em que o “circo” é montado nas aldeias. A intensificação
de visitas, reuniões, promessas e discursos ensaiados. Uma tentativa clara de
reconstruir narrativas e apagar da memória coletiva aquilo que foi vivido: a
falta de água, a violência, o abandono.
Mas a realidade não se
apaga com espetáculo.
Os povos indígenas de Mato
Grosso do Sul não precisam de palco. Precisam de políticas públicas sérias,
estruturadas, com orçamento, planejamento e respeito.
Precisam de dignidade.
Este editorial não é apenas
uma crítica. É um registro. Um alerta. E, sobretudo, um chamado à consciência.
Porque enquanto houver pão
e circo, haverá tentativa de controle.
Mas enquanto houver memória e resistência, haverá luta.
E a luta continua.




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