Governança Indígena: entre a responsabilidade coletiva e o futuro da autodeterminação
Dr Wilson Matos Advogado Criminalista foto arquivo Governança Indígena: entre a
responsabilidade coletiva e o futuro da autodeterminação
Por Dr. Wilson Matos
Os povos indígenas de Mato Grosso
do Sul vivem um momento decisivo de sua história. Muito além da luta pela
terra, enfrentamos hoje outro desafio igualmente importante: construir
instituições próprias capazes de responder às necessidades de comunidades que
cresceram demograficamente e se tornaram verdadeiras cidades indígenas.
Nossos antepassados
organizavam-se em pequenas aldeias, onde a autoridade tradicional exercia seu
papel em estreita convivência com a comunidade. A organização social era
suficiente para uma realidade de poucas centenas de pessoas, unidas por laços
familiares, culturais e espirituais.
Hoje, entretanto, a realidade é
outra. Reservas indígenas como Dourados, Amambai, Caarapó, Buriti e tantas
outras concentram populações superiores às de muitos municípios brasileiros.
São milhares de pessoas que necessitam diariamente de saúde, educação,
infraestrutura, saneamento, segurança, assistência social e oportunidades de
desenvolvimento.
Essa transformação exige uma nova
reflexão sobre a governança indígena.
Não basta eleger um cacique ou
capitão. É necessário construir instituições permanentes, transparentes e
eficientes, capazes de planejar, administrar, dialogar com os poderes públicos
e defender juridicamente os interesses coletivos das comunidades.
É exatamente esse caminho que
algumas lideranças vêm procurando trilhar.
Na Reserva Indígena de Dourados
(RID), as lideranças das aldeias Jaguapiru e Bororó iniciaram um processo de
fortalecimento institucional baseado na organização administrativa. Entre as
iniciativas estão a criação da Procuradoria Jurídica, a instituição de
secretarias temáticas por decreto e a elaboração de regimentos internos
destinados a estabelecer regras claras de funcionamento da administração
comunitária.
São medidas que representam uma
visão moderna de gestão, sem abandonar a identidade cultural dos povos Guarani,
Kaiowá e Terena. Pelo contrário: fortalecem a autonomia prevista no artigo 231 da
Constituição Federal, que reconhece aos povos indígenas o direito de manter sua
organização social, seus costumes, suas línguas, crenças e tradições.
Esse é o verdadeiro sentido da
autodeterminação: criar mecanismos para que os próprios indígenas conduzam o
destino de suas comunidades.
Infelizmente, também é preciso
reconhecer que nem toda liderança exerce sua função com esse compromisso. Em
alguns casos, cargos tradicionais acabam sendo utilizados como instrumentos de
promoção pessoal, favorecimento de grupos restritos ou barganha política
durante os períodos eleitorais. Quando isso acontece, perde a comunidade,
enfraquece-se a confiança nas instituições indígenas e amplia-se a
vulnerabilidade de nosso povo.
A crítica, entretanto, não pode
servir para generalizações. Existem inúmeras lideranças sérias, honestas e
dedicadas, que trabalham diariamente pelo bem coletivo, muitas vezes
enfrentando enormes dificuldades e limitações estruturais. São essas lideranças
que merecem reconhecimento e apoio, pois compreendem que o verdadeiro poder não
consiste em obter vantagens pessoais, mas em servir à comunidade.
Também considero importante
fazermos uma reflexão madura sobre as políticas públicas voltadas aos povos
indígenas. Na minha avaliação, muitos dos avanços sociais conquistados nas
últimas décadas ocorreram por meio de programas públicos que beneficiaram
diretamente as comunidades indígenas. Habitação popular, transferência de
renda, acesso ampliado ao ensino superior e outras iniciativas contribuíram
para melhorar as condições de vida de milhares de famílias indígenas.
Da mesma forma, vejo como
relevante a criação do Ministério dos Povos Indígenas, por representar um
espaço institucional específico para tratar das demandas dos povos originários
no âmbito do Governo Federal. No plano estadual, propostas voltadas ao
fortalecimento de uma estrutura administrativa dedicada às políticas indígenas
também merecem ser debatidas pela sociedade sul-mato-grossense.
Naturalmente, diferentes cidadãos
e lideranças possuem avaliações distintas sobre governos e partidos políticos.
Esse pluralismo faz parte da democracia. O essencial é que qualquer apoio
político tenha como prioridade os interesses permanentes das comunidades
indígenas, e não benefícios individuais ou circunstanciais.
O grande desafio para as próximas
décadas será transformar nossas aldeias em comunidades cada vez mais
organizadas, com planejamento, transparência, participação popular e
responsabilidade administrativa. Precisamos formar gestores indígenas,
juristas, economistas, administradores, professores e técnicos capazes de
conduzir nossas próprias instituições.
Talvez um dia possamos discutir
modelos jurídicos que ampliem a autonomia administrativa das grandes
comunidades indígenas, permitindo maior capacidade de gestão dos recursos
públicos destinados aos seus habitantes. Essa é uma discussão complexa, que
exige amplo debate constitucional e institucional, mas que não deve ser
afastada do horizonte.
Nada disso será possível sem
ética, responsabilidade e compromisso coletivo.
A verdadeira liderança indígena
não se mede pelo número de seguidores, nem pela influência política que exerce
durante as eleições. Mede-se pela capacidade de deixar instituições mais
fortes, comunidades mais unidas e um futuro melhor para as próximas gerações.
Se quisermos preservar nossa
identidade, combater o etnocídio cultural e garantir a efetiva autodeterminação
dos povos indígenas, o caminho passa necessariamente pela boa governança, pela
transparência e pelo fortalecimento das nossas próprias instituições.
Esse é o legado que devemos
construir para nossos filhos e netos.
*Wilson Matos da Silva – É
Indígena, Advogado Criminalista OABMS 10.689, especialista em Direito
Constitucional, é Jornalista DRT 773MS. residente na Aldeia Jaguapiru –
Dourados MS. nosliwsotam@gmail.com




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