RID: quando vidas indígenas viram apenas estatísticas
A repressão policial começou por volta das 8h30 desta quarta (27); indígenas tomaram tiros de bala de borracha no rosto, perna e costela | Crédito: Reprodução Fotos Gilberto Fernandes Por Wilson Matos da Silva
Há décadas os povos indígenas do Mato Grosso do Sul convivem com o abandono, a invisibilidade e a omissão do poder público. Na Reserva Indígena de Dourados — a conhecida RID — a dor coletiva já não cabe mais nos relatórios oficiais, nas promessas eleitorais ou nos discursos de ocasião. O sofrimento cotidiano se tornou parte da paisagem de um território superlotado, pressionado e esquecido.
Mais uma vez, a morte bateu à porta de uma família indígena. Ontem, a indígena Mítla Careces Machado perdeu a vida, somando-se a tantas outras vítimas de uma tragédia anunciada há anos: a rodovia que corta a Reserva Indígena de Dourados ao meio. Quantos indígenas ainda precisarão morrer atropelados para que autoridades compreendam que ali não passam apenas veículos, mas vidas humanas?Crianças, mães, trabalhadores, estudantes e idosos convivem diariamente com o risco permanente de acidentes. A estrada dividiu a RID fisicamente, mas também simboliza a divisão entre os discursos institucionais e a realidade vivida pelos povos indígenas.
Enquanto isso, o Estado se distancia cada vez mais. E o abandono é ainda mais cruel quando o município — o ente público mais próximo da população — se omite diante da crise social instalada dentro da Reserva. A RID já não suporta mais o peso da negligência histórica. Além das comunidades originárias, a região recebe uma população acadêmica flutuante vinda de outras aldeias para cursar universidades em Dourados.
Hoje, estima-se uma população de cerca de 26 mil indígenas vivendo ou circulando neste espaço extremamente reduzido, sem que haja estrutura mínima para suportar tamanha demanda. A consequência é o agravamento de problemas sociais de toda ordem. Falta segurança. Falta água. Falta saneamento. Falta assistência à saúde. Falta dignidade. As ocupações lindeiras à Reserva intensificaram ainda mais conflitos e aumentam ao casos violência. Diversas vidas indígenas já foram ceifadas em confrontos, disputas e situações de extrema vulnerabilidade social. Muitas dessas mortes sequer recebem atenção da grande imprensa ou mobilizam respostas efetivas das autoridades. Quando os indígenas protestam, reivindicando direitos básicos garantidos pela Constituição Federal, frequentemente recebem como resposta a repressão.
A imagem da tropa de choque reprimindo manifestantes indígenas que apenas pediam água revela muito sobre a lógica institucional aplicada aos povos originários: para os governantes, a força policial parece chegar mais rápido do que a política pública. O diálogo é substituído pela intimidação. O direito é tratado como desordem. A reivindicação legítima é tratada como ameaça.
O mais doloroso é perceber que vidas indígenas passaram a ser apenas números frios nas estatísticas oficiais. Cada assassinato, cada suicídio, cada atropelamento e cada jovem perdido para as drogas ou para o alcoolismo acaba reduzido a gráficos, relatórios e discursos burocráticos. Porém, por trás de cada número existe uma história interrompida, uma família destruída e um povo inteiro ferido.
A juventude indígena da RID vive hoje uma realidade cruel. Muitos jovens crescem sem perspectiva, sem oportunidades e sem políticas públicas voltadas ao esporte, cultura ou lazer. Não há campos esportivos adequados. Não há praças públicas estruturadas. Não há centros comunitários suficientes onde os jovens possam desenvolver atividades culturais, educacionais ou recreativas. O ócio imposto pelo abandono abre espaço para o avanço do alcoolismo, das drogas e da violência.
É preciso dizer claramente: a ausência do poder público também mata. Mata lentamente. Mata sonhos, identidades, tradições e futuros. A falta de recursos naturais para a manutenção dos usos e costumes tradicionais também agrava o sofrimento coletivo.
Sem território adequado, sem matas preservadas, sem rios limpos e sem espaço suficiente, torna-se cada vez mais difícil manter práticas culturais ancestrais que sustentam a espiritualidade e a organização social dos povos indígenas. Ainda assim, apesar de tantas dores, os povos indígenas resistem. Resistem porque a memória dos ancestrais continua viva.
Resistem porque a luta pela dignidade não terminou. Resistem porque defender a vida coletiva é também defender a própria existência dos povos originários. Mas, resistência não pode ser confundida com obrigação de suportar o abandono eterno. O poder público precisa assumir responsabilidades concretas.
O município, o Estado e a União devem parar de empurrar responsabilidades uns para os outros enquanto a população indígena sofre as consequências da omissão institucional. É urgente a implementação de políticas públicas sérias para juventude, segurança comunitária, mobilidade, lazer, geração de renda, saúde mental e valorização cultural dentro da Reserva Indígena de Dourados. Não se pode naturalizar a tragédia indígena. Não se pode aceitar que a morte de indígenas continue sendo tratada como rotina.
A RID não pode continuar sendo um território marcado apenas pela superlotação, violência e abandono.
Os povos indígenas não pedem privilégios. Pedem apenas aquilo que lhes é garantido pela Constituição: dignidade, respeito e direito à vida. E enquanto essas garantias forem negadas, seguiremos denunciando. Direto ao ponto.




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