Juventude Terena de Dourados rompe o silêncio histórico e ocupa a IX Assembleia do Povo Terena
Presença da Juventude Kaxé, da OTGD, denuncia apagamento acadêmico e reivindica o reconhecimento do etnoterritório Terena em Dourados
Foto: Divulgação/Arquivo Presença da Juventude Kaxé, da OTGD, denuncia apagamento acadêmico e reivindica o reconhecimento do etnoterritório Terena em Dourados.


A
Juventude Terena de Dourados, representada pela Juventude Kaxé da OTGD – Organização Terena da Grande Dourados,
participou ativamente da IX Assembleia
da Juventude do Povo Terena, levando à plenária uma pauta marcada pela
denúncia do apagamento histórico, territorial e acadêmico sofrido pelos Terena
de Dourados há mais de um século.
A
participação da Juventude Kaxé não foi apenas protocolar. Ela se constituiu
como um ato político de reaparecimento,
denunciando o limbo histórico imposto aos Terena de Dourados desde a chegada de
seus ancestrais à região, entre 1913 e
1914, antes mesmo da criação oficial da Reserva Indígena de Dourados (RID).
A
IX Assembleia da Juventude do Povo Terena ocorre entre os dias 04 e 08 de fevereiro de 2026, com
encerramento previsto para este sábado (08).
O
encontro é realizado na Aldeia
Cachoeirinha, localizada na Terra
Indígena Cachoeirinha, no município de Miranda, Mato Grosso do Sul.
Por
meio de falas firmes, documentos, articulações políticas e presença organizada,
a Juventude Kaxé da OTGD levou à Assembleia uma crítica direta à forma como a academia brasileira — especialmente após a
instalação da UFMS, UFGD e UEMS — escolheu quem deveria existir na produção
científica e quem deveria ser esquecido.


A
juventude denunciou que, ao longo das décadas, a narrativa acadêmica dominante reduziu a complexidade étnica da Reserva
Indígena de Dourados, reconhecendo quase exclusivamente os povos Guarani e Kaiowá, enquanto os Terena — fundadores históricos da RID
juntamente com esses povos — foram empurrados para a invisibilidade.
Esse processo se
aprofundou quando estudos e políticas públicas passaram a definir apenas dois grandes “etnoterritórios”:
- Ao Norte, os chamados Povos do Pantanal;
- Ao Sul, o etnoterritório
Guarani Kaiowá.
Nesse
enquadramento reducionista, os Terena
de Dourados ficaram sem lugar, apagados entre classificações artificiais
que ignoram o etnoterritório Guakuru,
Guató e Terena, e ainda misturam indevidamente os povos Nhandeva e Kaiowá como se fossem uma
única identidade homogênea.
Porque
o que está em jogo não é apenas memória, mas direito.
Direito ao território, à história, à existência política e à produção do
conhecimento.
Como
já denunciado no artigo “Quando a necropolítica apaga narrativas: os Terena
de Dourados e a violência silenciosa da academia”, a exclusão dos Terena de
Dourados não é acidental. Ela resulta de uma necropolítica acadêmica, que decide quais povos são dignos de
pesquisa, visibilidade e políticas públicas — e quais podem ser silenciados sem
constrangimento institucional.
A
presença da Juventude Kaxé na IX Assembleia do Povo Terena foi, portanto, vital e estratégica. Ela rompeu um
silêncio imposto há mais de cem anos, reafirmando que os Terena de Dourados existem, resistem e exigem reconhecimento —
não apenas na oralidade, mas nos registros oficiais, nos estudos científicos e
nas políticas de Estado.
Ao
ocupar a Assembleia, a juventude deixou claro que não luta mais apenas com arco e flecha, mas com caneta, conhecimento, organização política e
enfrentamento direto às narrativas convenientes da academia dominante.
A
participação da Juventude Terena da grande Dourados abrilhantou e tencionou a IX Assembleia, lembrando a todos que não
há unidade possível sem verdade histórica, e que não há futuro para o povo
Terena enquanto parte de seus filhos continuar sendo tratada como se nunca
tivesse existido, lembrando que o embrião da RID Antônio Bororó, Julieta Roberto
e Celestina Roberto Freitas, são oriundos da TI Cachoeirinha.
A
juventude bradou — e, desta vez, não
aceitará ser apagada novamente.




COMENTÁRIOS